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Homenagem a Guaraci Rodrigues

Eu o conheci nos idos dos 70 em Londres onde estávamos, Julio Bressane, Neville d´Almeida, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner, Anton Peticov, ele e alguns mais exilados da gloriosa porrada brasileira. Atuamos em Night Cats de Neville e Crazy Love de Julinho, filmados ao mesmo tempo, com os mesmos atores e o mesmo câmera – o único inglês da equipe – que não entendia xongas do que estava acontecendo, pois cada vez que mudava a bobina, mudava também o diretor e o filme.

Depois nos esbarramos nas várias esquinas do mundo. A última vez em que atuamos juntos foi no Rio, vinte anos atrás, em Anemic de Fernando Silva, onde contracenávamos em torno da magnífica bunda de Aldine Muller, uma faceta feminina que ele me confidenciou gostar. Recentemente nos reaproximamos em Trancoso, que desde Cabral promove novas descobertas. Passo a palavra a Geraldo Veloso, que o conhecia muito mais.

—– Original Message —–
From: Geraldo Veloso
To: Rosario
Sent: Tuesday, February 21, 2006 1:58 PM
Subject: Guará

Querida Rosário
O José Sette já te avisou. Fico sensibilizado pela tua presença ativa na hora da partida desta figura seminal que foi o Guará. Parte um irmão. E dói.
Dói como a antecipação egoísta da nossa própria partida. Como disse o Neville de Almeida: foi como todos deveríamos ir, dormiu e não acordou. Sem dor. Sem expiação. Rápido. Discreto. Como viveu: uma estrela (do udigrudi) sem celebridade. Celebridade para uns “happy few”. É duro porque ele gostava de viver. Mas viveu. Não sei se chegou a completar o seu projeto literário, “Memórias de um hóspede”. É difícil dar a devida dimensão do que o Guará significou para toda uma geração. Quem poderia, cumulativamente, falar sobre isto, seriam Júlio Bressane, Neville de Almeida, Rogério Sganzerla, RafaelConde, Luiz Nazário e centenas de amigos que Guará deixou por aí (quando o Paul Mazurski chegou ao Rio para fazer o “Luar sobre Parador” veio com a indicação de um grande amigo: “Onde está o Guará? Quero ele para o meu filme”; o amigo era o Robert De Niro) pelo mundo afora. Mau humorado,impaciente com a mediocridade, cabeça criativa e excepcionalmente informada,sempre vivia galáxias à frente de nós, os “normais”. Todos de nossa geração,sobretudo daqui de Minas, ou do ciclo carioca/mineiro do udigrudi, temos muito a referenciar em Guaracy Rodrigues. Uma figura doce e pronto para apiada mais demolidora. Viveu o cinema o tempo que esteve aqui.

Poucos sabem mais do cinema do que ele sabia. Personagem constante de si mesmo, não conseguiu ser ator: era ele mesmo que representava a si próprio. Personagem único de um tempo. Não conheço ninguém que se aproxime de Guará. Mas influenciou a todos nós na visão da vida, na descontração que viveu sem um tostão no bolso. Quantos pratos de comida partilhamos na Spaghettilândia do Rio, quantos pousos comuns tivemos (o Edifício Belair, na Praia de Botafogo,o apto na Júlio de Castilhos, no Porto Seis do Rio, o “aparelho” da rua JoãoLira no Leblon – onde Neville escreveu, com ele e João Souza Leite, sobre uma idéia de Jorge Mautner, que também pousava frequentemente por lá,”Jardim de Guerra” e filmamos cenas de “A Vida Provisória” e Rogério Sganzerla ficava quando estava no Rio, escrevendo o roteiro de “Bandido” – a Colville Road, de Londres, a Elgin Crescent, casa do Júlio, em frente à vila
do Gil, nosso ministro, “Night Cats” e “Crazy Love” de Neville e Júlio,respectivamente). Uma história que vivemos juntos define o que era esta figura fantástica: comprei em Londres uma Mercedes, 1958, usada, e dei de presente à minha mulher, então (Betty Autran, mãe de meus três filhos) que estava grávida de minha primeira filha, Jacyra. Andamos muito, naqueles meses, por Londres e Paris. Uma noite, estávamos sem pouso – e

sem grana -em Paris e tentamos pernoitar em um hotel em Montparnasse, eu, Guará e Betty. O porteiro do hotel não permitiu que ele ficasse no apartamento conosco. De boa paz, Guará disse que dormiria dentro do nosso carro. De manhã, nos acordou dizendo que tinha passado uma noite gloriosa: dormira no banco de trás de uma Mercedes coberto por um casaco de peles (um casaco de peles comprado pela Betty num brechó de Portobello Road, ao lado de nossa casa). Depois, em nova temporada londrina, me deu de presente dois carros que tinha ganho de amigos, um Standard, antigo, de teto solar e um Bentley, hidramático, com a condição de eu colocá-los para funcionar, pois os carros ficavam estacionados em frente “a nossa casa, na Lancaster Road, esquina de Basing Street (lembremos do blues cantado pela Ella Fitzgerald: “Basing Street, is the street, where the best folks, in New Orleans…”). Não consegui fazê-los funcionar. Cara Rosário, acho que tenho que parar por aqui pois a emoção está chegando, morna, triste e angustiada. Briguei muito com ele. Guará não era mole. Mas amei esta figura. E, acredito, sempre tive dele uma generosidade e tolerância que não vi ele praticar com muita gente.
Que a terra lhe seja leve. Como os lobos Guará, é uma figura em extinção.
Não se fazem Guarás como antigamente.
Um abraço
Geraldo Veloso

“EU VIM AO MUNDO PRÁ CURTIR”

Guará

Sem mais, do Rio de Janeiro, JORGE MOURÃO

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