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Palloçadas do governo

Em meio à decrepitude amoral, às palloçadas do governo, ao descaramento da de-puta-da que rebolou o animalesco glúteo em comemoração a mais uma absolvição corporativa, à pobre senhora que amarga prisão por ter roubado um pote de manteiga, e – cúmulo! – ao vendedor de coador de café, que, após quase vinte anos de atividade em uma esquina metropolitana, cego, foi preso por uma infeliz policial que o acusou de atentado ao pudor, prefiro brindar-lhes com o biscoito fino da reflexão erudita. Jovem somos enquanto não desistirmos.

Ubi sunt qui ante nos in mundo fuere?
Carlos Figueiredo

Onde estão os que antes de nós viviam neste mundo? A frase salta no artigo Resposta à Pergunta, de Otto Maria Carpeaux, autor da História da Literatura Ocidental e intelectual de erudição assustadora. Parafraseando Hamlet, that´s the question. E qual a resposta?

Aqueles que pensam encontrá-la na História, imaginando-a como uma espécie de escadaria rumo a um mundo melhor, talvez devessem ouvir Kant. Segundo o filósofo alemão, não conhecemos os desígnios que presidem o seu caprichoso transcorrer. Ou Valéry: não se aprende nada com a História.

É claro que a ciência nos assombra com suas células tronco e células espelho. Com o teletransporte de assinaturas atômicas. Nanopartículas e a possibilidade da energia limpa da fusão nuclear. Mas isso talvez seja apenas, como diz John Gray, em Straw Dogs, produto da peculiaridade da nossa espécie. Estamos não mais do que fabricando o que nos é facultado pela nossa natureza, assim como qualquer outra. Com relação ao nosso destino, parecemos estar fadados ao oblívio e quanto a isso temos tanto arbítrio como uma rês indo para o matadouro.

Lovelock é voz que clama no deserto. E, no entanto, a tese desse cientista, apresentada há décadas, a Hipótese Gaya (de Geos, Terra, em grego), a qual defende a idéia de que o Planeta é uma espécie de ser vivo sendo atacado por um vírus – a espécie humana – e que, naturalmente, reage procurando exterminar essa virose, vem sendo cotidianamente referendada — em um verdadeiro escândalo histórico (mais um) que confirma nossa natureza inerme — pelas manchetes dos jornais. A manchete de hoje (11/2/2006 – Estadão p. A30): Aquecimento global é o maior dos últimos 100 anos.

No fundo, em que a espécie humana teria, de fato, estabelecido fundamentos que permitam a alguém, em sã consciência, afirmar que trilhamos o caminho do aperfeiçoamento e que uma sociedade fraterna está à mão?

Em pleno Século XXI, a questão subjacente ao velho poema goliardo, “Ubi sunt qui ante nos in mundo fuere”, assusta como assustava e fazia o camponês siberiano tremer na sua longa noite escura, com medo do mundo dos mortos e entregar-se à busca desvairada de exorcismos xamânicos para apaziguar o seu terror. Hoje como antes, nos tem presa, e hoje como antes, buscamos, desvairados, respostas meramente reasseguradoras, expressas a cada dia — com maior potência destruidora — no fanatismo dos fundamentalistas do ocidente e do oriente.

Carpeaux termina seu artigo, afirmando que a resposta foi dada, definitivamente, pelo buril de Goya: na gravura, na qual um esqueleto escreve sobre seu próprio túmulo a palavra Nada.

Perturbados pelo temor da morte – Timor Mortis conturbat me, o temor da morte me pertuba, no poema de William Dunbar — reagimos, como animais que somos, com medo e fúria. Quem sabe, como diziam os gregos, a verdade nos salvasse?

Enquanto isso, sigamos o que preconiza a primeira estrofe do verso da pergunta: Gaudeamus igitur, juvenes dum sumus, sejamos alegres enquanto somos jovens.
É a condição possível.
Sejamos alegres enquanto somos jovens

Onde estão os que antes de nos viviam neste mundo?

do Rio de Janeiro, Jorge Mourão

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